Aula Quatro e Cinco - Definindo irrigação e onde irrigar

"Na definição clássica, irrigação é a técnica de aplicação artificial de água que se utiliza para repor a água consumida pelas plantas no processo de transpiração das folhas e evaporação do solo, a chamada evapotranspiração. Todavia, uma irrigação não pode e não deve ser entendida, única e exclusivamente, como um procedimento artificial para atender às condições de umidade de solo visando à melhoria da produção agrícola, tanto em quantidade como em qualidade ou oportunidade. Na realidade, ela constitui um conjunto de operações (compondo em si um sistema) necessário ao atendimento das necessidades de água das plantas, bem como eliminar seus excessos, que transcendem à relação solo-água-planta-atmosfera, pura e simplesmente. Agrega-se, aí, o clima, o homem, além de outros campos do conhecimento da humanidade com grande abrangência. A ciência e a arte da irrigação, são abrangentes e interdisciplinares, passando pelo campo das ciências agrárias, das exatas (engenharia hidráulica, civil, elétrica, etc.), sociais (economia, sociologia, política, etc), mas nenhuma delas é mais importante que a outra, pois quando da decisão final quanto ao uso da água, todos esses fatores conjuntamente têm que ser levados em conta. Assim, são tantas as possibilidades que se tem com o uso da irrigação que a definição clássica é simplista demais pelo que ela pode oferecer. Melhor seria definir irrigação como um conjunto de ações e conhecimento eclético que pode levar o produtor a concretizar maiores produtividades e auferir maiores lucros. Lembre-se então sempre: a irrigação na agricultura deve ser entendida não somente como um seguro contra secas ou veranicos, mas como uma técue, Anica que dê condições para que o material genético expresse em campo todo o seu potencial produtivo." (HERNANDEZ, 2004 e 2013).

Pod Irrigar - Crise hídrica e as consequências para a agricultura irrigada
A Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação - CSEI, da ABIMAQ, divulgou a estimativa da áreairrigada de 2000 a 2015 agrupados por tipo de sistema pressurizado de irrigação. Os resultados não foram nada animadores para um país com 60 milhões milhões de hectares potenciais para a agricultura irrigada e que precisa aproveitar melhor seu potencial e vocação de produtor de alimentos. Desde 2009 a incorporação de áreas irrigadas seguia em trajetória crescente com o ápice em 2013 quando o Brasil incorporou novos 271.786 hectares irrigados. Em 2014 a queda foi 19% e em 2015 a redução da incorporação de novas áreas irrigada foi de foi de 15%, ficando em 187 mil hectares as novas áreas incorporadas.



O carretel enrolador foi o sistema que menos áreas incorporou reduzindo sua participação à 6 mil hectares (3,2%), pivô central ficou com uma expansão de 78 mil hectares (42% do mercado), sistemas convencionais cresceram 28 mil hectares (15%) e sistemas localizados ocuparam novos 75 mil hectares (40%), aumentando a sua participação no mercado, mas reduzindo também o seu crescimento, à exemplo de todos os demais sistemas que incorporaram menos área que em 2014.





A redução da área irrigada pode ser creditada a maior crise hídrica já enfrentada pelo Brasil, iniciada em 2013, se alongando por 2014, impondo restrições à novas concessões de outorgas, ainda vigentes mesmo em regiões onde onde o armazenamento já foi recomposto, como por exemplo as áreas das bacias hidrográficas dos rios São José dos Dourados e Turvo/Grande, aqui no noroeste paulista. De qual forma, o armazenamento de água não está totalmente recomposto e o Nordeste é a região que mais sente ainda a crise hídrica, tendo apenas 34,8% de água armazenada, seguida da região Sudeste com 58,6%, Norte com 61,3% e Sul com 93,6%.


Outro fator que contribuiu para a diminuição da expansão da nossa agricultura irrigada foi a crise econômica e política que se presencia no Brasil, afetando diretamente o ritmo de concessões dos financiamentos à irrigação. Esperamos por dias melhores! A redução da expansão da agricultura irrigada em 2015 já havia sido antecipada no [Pod Irrigar] por Antônio Alfredo Teixeira Mendes, diretor da NaanDanJain Brasil, relatando a previsão de vendas de diferentes tipos de equipamentos no setor da irrigação. Esse foi o tema que desenvolvemos esta semana no [Pod Irrigar] - o Pod Cast da Agricultura Irrigada. Ouça também as edições anteriores - são apenas três minutos, mas de muita informação.

Aulas
Na semana passada "pegamos carona" no reconhecimento por parte das Estatais Furnas e Eletronorte de que a decisão política suplantou a técnica e a estratégica para o país quando disseram que "a despeito da situação excepcional de crise hidrológica por que passa o país, especialmente no ano 2014 (ano eleitoral), não foram implementadas pelo governo, as medidas indispensáveis à manutenção do equilíbrio financeiro". Claro que estamos falando da gestão da água dos nossos reservatórios das hidrelétricas e a conta que brasileiros pagarão somente no setor elétrico é estimada em R$ 20 bilhões e abordamos o fechamento da Hidrovia Tietê-Paraná pelo baixo nível dos reservatórios.
Falamos no [Pod Irrigar] desta Hidrovia por dois motivos: o primeiro, porque trata-se de um projeto estratégico para o Brasil, a maior das hidrovias, concebida há mais de 50 anos e ainda com muito trabalho pela frente para a sua consolidação efetiva. O segundo é que trabalhamos nesta região, onde a UNESP tem um dos seus Campi e além do desemprego legado aos profissionais que trabalham com a hidrovia, tivemos os irrigantes situados ao longo do rio Paraná a partir da Usina de Ilha Solteira, do Rio Paranaíba, do Rio Grande e Rio Tietê afetados em suas atividades de produção de alimentos.

O abaixamento do nível destes rios até a cota 318,73 metros em 5 de março de 2015 exigiu muito mais que novas tubulações e investimentos. Do limite máximo na cota 328 metros são quase dez metros de diferença de nível e em alguns lugares foram necessários andar até 500 metros para posicionar a bomba e manter os sistemas de irrigação em funcionamento, mas há um problema técnico a ser resolvido, chamado de NPSH disponível e assim, há três alternativas para solucionar o problema, associação de bombas em série com balsa ou bomba submersa e ainda construir canal de chamada para trazer água até próximo da margem original e diminuir a diferença entre o nível da água e o eixo da bomba. Ainda que não cause nenhum mal ao meio ambiente esta solução não foi efetiva por receio injustificado das agências ambientais.





Assim, além de exigir novos investimentos que se serão descartados se voltarmos a normalidade da gestão da água mantida aqui no limite mínimo de 323 metros com hidrovia funcionando há também o problema da mudança do ponto de captação afetar a distribuição de água nos pivôs centrais pela alteração da pressão do sistema e com isso a produtividade. Portanto, para a produção de alimentos os custos aumentaram bastantes, além dos custo da energia, já conhecido de todos.
A lição a ser aprendida: em novas instalações de irrigação, o irrigante deverá decidir qual o risco que quer correr ao definir a cota de captação de água. Quanto menor a cota, maior o investimento e mais segurança! E para isso, os profissionais estão tendo que aprender ou usar técnicas de sensoriamento remoto e sistemas geográficos de informação para projetar adequadamente os seus sistemas de irrigação. É mais profissionalização no campo!



Discutimos lâmina de projeto, custos, investimentos, tarifa de energia e viajamos por várias partes do mundo para mostrar como a agricultura irrigada distribui oportunidades por seus efeitos multiplicadores e assim, passamos pela Africa (Egito, Etiópia, Sudão), Oriente Médio, Iraque, Arábia Saudita, Irã, Estados Unidos e Brasil, quando falamos sobre os Perímetros ou Distritos de Irrigação que estão presentes no Nordeste e em alguns Estados como Goiás e Minas Gerais. 

Vamos conhecer um Distrito de Irrigação nos Estados Unidos? Situado no sul da California, com restrição na oferta de água, com um solo extremamente arenoso e com problemas de salinidade, o The Coachella Valley Resource Conservation District (CVRCD) promove a conservação e o uso adequado da água como ferramenta para a continuidade do desenvolvimento sócio-econômico do Coachella Valley, que circunda n parte norte do Salton Sea. Veja fotos, vídeos (1 e 2) e estratégias, que inclui o Laboratório Móvel para Avaliação e Manejo da Irrigação (Irrigation Evaluation/Management - Mobile Lab). Veja também o uso da água para agricultura no Coachella Valley. Mas o Coachella é alimentado pelo All American Canal, um aqueduto de 130 km de comprimento aqueduto, localizada no sudeste da Califórnia, que leva a água do rio Colorado até o Vale Imperial e nove cidades, sendo a única fonte de água da região e substituiu o Canal Alamo, que foi localizado em sua maior parte no México. A Imperial Dam (1), cerca de 48 km a nordeste de Yuma, Arizona, no rio Colorado, desvia a água para o All American Canal, que vai até a oeste de Calexico, Califórnia, antes de seu último ramo seguir principalmente para o norte do Vale Imperial. Seis ramificações/canais menores saem do All American Canal para levar água para o Vale Imperial que tem no Imperial Irrigation District o distribuidor de água para toda a região, que irriga 250.000 hectares de terra de alta produtividade e possibilitou um grande aumento de rendimento das culturas nesta área, originalmente uma das regiões mais secas da Terra. É o maior canal de irrigação no mundo, transportando até 740,6 m3/sToda a água de drenagem agrícola e de escoamento superficial deságua no Salton Sea, uma área federal de refúgio da vida selvagem, criada por uma enchente em 1905, com água do rio Colorado corria para a área através do Alamo Canal, construído a partir de 1900. O All American Canal corre paralelo à fronteira com a Califórnia do México por vários quilômetros, pelo fato de que mais de 500 pessoas terem se afogado no canal desde 1997, tem sido chamado de "o corpo de água mais perigoso dos Estados Unidos" e foi autorizada a sua construção junto com a Hoover Dam pelo Boulder Canyon Project Act em 1928 e construído em 1930 U.S Bureau of Reclamation e Six Companies Inc, tendo a sua concepção e construção sido supervisionada pelo Engenheiro John L. Savage e foi concluída em 1942. Tivemos o privilégio de conhecer toda esta estrutura de transporte de água e de produção agrícola em dezembro de 2010 na companhia do Engenheiro Agrônomo Sócrates Gonzales, do Imperial Irrigation District e detalhes desta viagem que começou em Phoenix, no Arizona, estão descritos neste blog e também registrados em videos no canal da AHI no YouTube (12).

Também discutimos a legislação dos recursos hídricos (Lei 9.433 de 8/01/1997 - Lei das Águas e a Lei 12.787 de 11 de janeiro de 2013 - Política Nacional de Irrigação que destacamos em artigos publicados na imprensa e também no Pod Irrigar), com seus princípios, objetivos e instrumentos. Introduzimos os conceitos de bacia hidrográfica delimitada pelo divisor de águas e tendo o talvegue como canal de escoamento ladeado pela APP e a importância da reserva legal e de ações que promovam a infiltração da água e o escoamento de base em detrimento do escoamento superficial, que vai causar erosão e assoreamento e ainda afetar a qualidade e a disponibilidade de água, especialmente elevando a concentração de ferro, principal problema para a irrigação localizada. A questão ambiental às vezes se torna um entrave e agentes públicos tem ainda que conversar para viabilizar uma agenda de consenso na regularização ambiental.

As propriedades físico-hídricas dos solos foram discutidas quando o conceito de balanço hídrico foi introduzido e assim os efeitos da granulometria do solo (textura) sobre a CAD, Capacidade de Campo, Ponto de Murchamento Permanente, Saturação, evapotranspiração de referência, potencial e atual foram exemplificados. Para relembrar conceitos e as propriedades físico-hídricas dos solos e exercícios consulte PREVEDELLO, C.L. (1996), REICHARDT, K. (1987) e REICHARDT, K. e TIMM, L.C. (2004). E o resultado do balanço hídrico que caracteriza numericamente uma seca foi exemplificado com situações e ações no nordeste e no Rio Grande do Sul, incluindo o bom exemplo da agricultura irrigada e seus resultados. O Professor Paulo Cesar Sentelhas da ESALQ-USP desenvolveu uma série de planilhas interessantes para se fazer o balanço hídrico. Ou se preferir faça o download no canal da AHI! Mas conheça também o Banco de Dados Climáticos do Brasil - EMBRAPA! Sobre evapotranspiração, Yane Freitas fez um didática postagem. Confira!

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