Artigo: Sobre jovens e valores

Sobre jovens e valores


No final da próxima semana terei o prazer de, mais uma vez, ser patrono de uma turma de formandos de uma das mais importantes escolas de administração de empresas do Brasil. Nesses últimos dias, tenho refletido sobre quais mensagens compartilhar com esses nossos jovens. O momento é favorável para quem está chegando ao mercado.

Há muitas oportunidades de trabalho, por conta da forte atividade econômica e da carência de pessoal com boa formação para as carreiras de executivos ou de empreendedores.

Esse cenário põe diante dos jovens dúvidas sobre quais caminhos seguir. Afinal, com tantas opções, escolher traz também suas dificuldades.

Ao longo do tempo, percebemos que a vida é feita de constantes escolhas. O encadeamento das decisões tomadas será, por fim, a vida que cada um terá construído. Não há passos para trás - é só o caminhar para a frente.

Quais então as bases para essas escolhas que os jovens deverão fazer? Arriscarei aqui explorar alguns conceitos.

Para começar, vale destacar que os jovens não podem jamais se considerar "formados". Esse termo usado neste contexto, aliás, carrega duas imprecisões.

A primeira é que "formar" sugere que a pessoa foi moldada numa forma, quando na verdade o que se busca é o desenvolvimento do potencial de cada um. Por outro lado, cada vez mais o processo de desenvolvimento é contínuo e não se conclui ao final de um curso.

Na hora de definir um critério de escolha, vejo jovens comentando sobre seguir este ou aquele caminho, por conta da possibilidade de melhor remuneração.

Há uma armadilha aqui. A remuneração será maior apenas para aqueles que se destacarem e, em geral, só se destaca quem tem perfil para determinada função, para aquele momento do mercado.

Assim, vale mais cada um procurar se conhecer, e buscar se ouvir - ouvir a tal voz interior, que está na origem da palavra "vocação".

Ao buscar esse autoconhecimento, não caiamos no lugar-comum de definir qualidades e defeitos.

Esses termos encerram um julgamento descabido e que pode mexer indevidamente com a autoestima dos jovens. O que existe é um perfil, e cabe a cada um conhecer o seu e compreender onde poderá encontrar espaço para melhor se desenvolver.

Conversas com professores, com tutores, com amigos e com familiares ajudam muito nesse balizamento.

Uma vez tomada a decisão, fazer bem-feito o que escolher é certamente o melhor caminho para crescer e ter o reconhecimento e a felicidade desejados.

Vejo muitos profissionais que estabelecem um objetivo de carreira, e com nada se contentam, a menos que "cheguem lá". Só que a felicidade pode não estar "lá". Gandhi resumiu bem isso, dizendo: "Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho". Aproveite cada momento, na beleza que ele representa, e não se deixe consumir pela angústia de saber se algo maior chegará.

Por fim, e como tenho feito repetidas vezes nesta coluna, chamo a atenção para a questão dos "valores". Acredito que, se a minha geração não foi capaz de deixar um mundo melhor para os nossos jovens, terá certamente deixado jovens melhores para o nosso mundo.

Conheci ainda na semana passada uma pesquisa que será divulgada em breve sobre os valores da nossa sociedade e da nova geração. É gratificante ver que os jovens entendem a relevância da cidadania, da transparência, com uma intensidade e uma consistência que os de outras gerações não entendiam.

Os profissionais cada vez mais buscam um significado, principalmente os jovens. Querem saber como seu trabalho impacta o ambiente, a sociedade, o futuro etc.

A busca de um sentido para o que se faz é a indicação maior de que muito se evoluiu nessas novas gerações.

O escritor Érico Veríssimo dizia que "felicidade é saber que não se viveu uma vida em vão". Mais jovens buscam isso. O futuro do país está em boas mãos.

FÁBIO COLLETTI BARBOSA, 55, administrador de empresas, é presidente do Grupo Santander Brasil e da Febraban. Folha de São Paulo, 10 de outubro de 2010, Mercado, B.11.

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Aproveitando, também na Folha de São Paulo deste dia 10/10/2010, Demian Fiocca aconselha:
- "Procure o conhecimento, mais do que a novidade".
- "Mantenha o espírito crítico. É possível fazer carreira seguindo uma moda, mas o aconchego de um grupo pode deixá-lo autocomplacente. O que tem valor, é dá verdadeira satisfação, é a busca por conhecer como a economia funciona de fato. Não receie ter opiniões próprias discordantes da média, quando surgirem da aplicação intelectualmente honesta de seu melhor conhecimento. Uma dose de ousadia, se autêntica, ajuda na carreira".
- Demian recomenda a leitura do livro "A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda" de J.M. Keynes, pois "Acredito no valor de ler as grandes obras. Busque artigos e livros originais de cada escola de pensamento, os fundadores de cada paradigma. Aprende-se mais rápido".

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