Agrotóxicos, alimentos e RSE na mesma salada?
Um susto. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou, no final de junho, um relatório sobre o uso de agrotóxicos em amostras das frutas e verduras consumidas pelos brasileiros. Concluiu que esse uso é indiscriminado e muito acima do necessário para preservar as lavouras das pragas. São utilizadas inclusive substâncias já proibidas no Brasil e em vários outros países. Em resumo, estamos sendo envenenados aos poucos.
Vamos aos dados. Das 3.130 amostras analisadas pela Anvisa, 29% apresentaram problemas que vão desde o uso de defensivos proibidos em território nacional até altas concentrações de resíduos nos alimentos testados. O pimentão, por exemplo, lidera o ranking do agrotóxico – 80% das amostras analisadas apresentavam alguma irregularidade. Em seguida vêm a uva, o pepino e o morango.
Ao uso exagerado dos defensivos, que nos torna campeões mundiais na aplicação dessas substâncias, ainda se soma outro gravíssimo problema: o Brasil é o principal destino de uma série de produtos banidos de outros países.
A importação brasileira de agrotóxicos cresceu 240% entre 2000 e 2007. Em 2009, foram compradas 780 mil toneladas desses produtos, gerando para os fabricantes um faturamento de US$ 8 bilhões. Mais de 80% das vendas no país são realizadas pelas dez maiores empresas do setor no mundo.
O endossulfan é uma das substâncias com indicação de banimento que continuam sendo importadas pelo Brasil. Associado ao câncer e a problemas hormonais, o produto é utilizado nas lavouras de cana, cacau e soja. Em 2008, o país importou quase 1.900 toneladas de endossulfan; em 2009, esse volume pulou para quase 2.400 toneladas.
A situação preocupa muito porque, além de envenenar o consumidor e o próprio produtor rural, o uso indiscriminado e sem orientação de agrotóxicos compromete fontes de água e também o solo, trazendo prejuízos aos negócios e degradação para o meio ambiente.
Por que ainda continuamos a importar e, principalmente, a empregar esses agrotóxicos em nossas lavouras? A resposta não é simples.
Antes de entrar no país, qualquer substância é submetida a análises e testes feitos por diversos órgãos, que verificam o potencial dano que ela pode causar à saúde humana ou animal, bem como seu impacto ambiental. Uma vez obtido o registro, a licença para comercialização do produto é por tempo indeterminado, ao contrário dos remédios. Por isso, fica muito difícil retirá-lo do mercado. Os órgãos governamentais só irão reavaliar as licenças em caso de alerta nacional ou internacional sobre o perigo daquela substância. Entre recursos judiciais impetrados pelos fabricantes e períodos necessários para novas pesquisas, o processo de banimento do produto pode levar vários anos até ser concluído.
Em 2008, a Anvisa pôs em reavaliação 14 ingredientes ativos de agrotóxicos, que, todavia, não se completou até agora. O processo ficou parado por quase um ano por conta de medidas judiciais que impediam a continuidade das pesquisas.
Este ano, a cihexatina teve seu processo completado pela Anvisa e seu uso proibido em todo o território nacional, com exceção do Estado de São Paulo, que poderá utilizá-la até 2011. Muito aplicada na citricultura, a cihexatina, no entanto, não é usada nas laranjas que serão exportadas, porque os maiores compradores – Canadá, EUA e Japão – já baniram esse princípio ativo de seu território.
Cinco outras substâncias estão em fase final de reavaliação pelo órgão. Um produto – o fosmete – terá permissão para permanecer, mas com severas restrições ao uso. Outros quatro terão recomendação de banimento: o acefato, o metamidofós, o endossulfan e o tricloform.
Para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), se esses produtos forem banidos, o produtor rural terá de gastar até 200% a mais com agrotóxicos. Esses ingredientes já possuem suas patentes quebradas, sendo, portanto, “genéricos” de livre fabricação e mais baratos. O mesmo não ocorre com os possíveis substitutos.
Um exemplo disso é o endossulfan, usado para combater o cupim da cana-de-açúcar. De acordo com a CNA, o produto tem um custo de R$ 198,00 por hectare. Seu substituto custaria ao agricultor até R$ 340,00 para a mesma área de plantio.
A situação é complexa e exige uma avaliação mais profunda do que as aparências indicam. Os caminhos para soluções possíveis passam pela responsabilidade social empresarial.
Os produtores, por exemplo, poderiam pressionar por informações corretas por parte dos fornecedores desses insumos e passar a fazer o uso adequado das substâncias.
As redes de varejo, por sua vez, poderiam levantar as condições de produção das frutas e verduras que pretendem comercializar, no que tange ao uso de agrotóxicos, assim como já fizeram no caso da carne, rastreando a cadeia de fornecedores para evitar trabalho escravo.
E a indústria brasileira de defensivos agrícolas deveria adotar padrões mais altos, semelhantes aos já praticados em outros países, tomando a iniciativa de substituir os produtos cujo impacto negativo sobre a saúde humana já está comprovado.
Boa parte dessas companhias publica relatórios de sustentabilidade e registram práticas de responsabilidade social empresarial. Resta saber como elas enquadram o fato de produzir substâncias comprovadamente danosas à saúde e ao meio ambiente.
As empresas engajadas no movimento de responsabilidade social, sobretudo as que direta ou indiretamente integram a cadeia de valor dos defensivos agrícolas, precisam mudar esse cenário. Não é possível permitir que continue esse envenenamento lento e gradual de milhões de pessoas em nosso país.
Os governos, em suas diversas instâncias, precisam tomar decisões sintonizadas que ponham em primeiro lugar a saúde do cidadão e a integridade ambiental.
Cristina Spera e Benjamin S. Gonçalves, do Instituto Ethos
Fonte: Envolverde/Instituto Ethos
Vamos aos dados. Das 3.130 amostras analisadas pela Anvisa, 29% apresentaram problemas que vão desde o uso de defensivos proibidos em território nacional até altas concentrações de resíduos nos alimentos testados. O pimentão, por exemplo, lidera o ranking do agrotóxico – 80% das amostras analisadas apresentavam alguma irregularidade. Em seguida vêm a uva, o pepino e o morango.
Ao uso exagerado dos defensivos, que nos torna campeões mundiais na aplicação dessas substâncias, ainda se soma outro gravíssimo problema: o Brasil é o principal destino de uma série de produtos banidos de outros países.
A importação brasileira de agrotóxicos cresceu 240% entre 2000 e 2007. Em 2009, foram compradas 780 mil toneladas desses produtos, gerando para os fabricantes um faturamento de US$ 8 bilhões. Mais de 80% das vendas no país são realizadas pelas dez maiores empresas do setor no mundo.
O endossulfan é uma das substâncias com indicação de banimento que continuam sendo importadas pelo Brasil. Associado ao câncer e a problemas hormonais, o produto é utilizado nas lavouras de cana, cacau e soja. Em 2008, o país importou quase 1.900 toneladas de endossulfan; em 2009, esse volume pulou para quase 2.400 toneladas.
A situação preocupa muito porque, além de envenenar o consumidor e o próprio produtor rural, o uso indiscriminado e sem orientação de agrotóxicos compromete fontes de água e também o solo, trazendo prejuízos aos negócios e degradação para o meio ambiente.
Por que ainda continuamos a importar e, principalmente, a empregar esses agrotóxicos em nossas lavouras? A resposta não é simples.
Antes de entrar no país, qualquer substância é submetida a análises e testes feitos por diversos órgãos, que verificam o potencial dano que ela pode causar à saúde humana ou animal, bem como seu impacto ambiental. Uma vez obtido o registro, a licença para comercialização do produto é por tempo indeterminado, ao contrário dos remédios. Por isso, fica muito difícil retirá-lo do mercado. Os órgãos governamentais só irão reavaliar as licenças em caso de alerta nacional ou internacional sobre o perigo daquela substância. Entre recursos judiciais impetrados pelos fabricantes e períodos necessários para novas pesquisas, o processo de banimento do produto pode levar vários anos até ser concluído.
Em 2008, a Anvisa pôs em reavaliação 14 ingredientes ativos de agrotóxicos, que, todavia, não se completou até agora. O processo ficou parado por quase um ano por conta de medidas judiciais que impediam a continuidade das pesquisas.
Este ano, a cihexatina teve seu processo completado pela Anvisa e seu uso proibido em todo o território nacional, com exceção do Estado de São Paulo, que poderá utilizá-la até 2011. Muito aplicada na citricultura, a cihexatina, no entanto, não é usada nas laranjas que serão exportadas, porque os maiores compradores – Canadá, EUA e Japão – já baniram esse princípio ativo de seu território.
Cinco outras substâncias estão em fase final de reavaliação pelo órgão. Um produto – o fosmete – terá permissão para permanecer, mas com severas restrições ao uso. Outros quatro terão recomendação de banimento: o acefato, o metamidofós, o endossulfan e o tricloform.
Para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), se esses produtos forem banidos, o produtor rural terá de gastar até 200% a mais com agrotóxicos. Esses ingredientes já possuem suas patentes quebradas, sendo, portanto, “genéricos” de livre fabricação e mais baratos. O mesmo não ocorre com os possíveis substitutos.
Um exemplo disso é o endossulfan, usado para combater o cupim da cana-de-açúcar. De acordo com a CNA, o produto tem um custo de R$ 198,00 por hectare. Seu substituto custaria ao agricultor até R$ 340,00 para a mesma área de plantio.
A situação é complexa e exige uma avaliação mais profunda do que as aparências indicam. Os caminhos para soluções possíveis passam pela responsabilidade social empresarial.
Os produtores, por exemplo, poderiam pressionar por informações corretas por parte dos fornecedores desses insumos e passar a fazer o uso adequado das substâncias.
As redes de varejo, por sua vez, poderiam levantar as condições de produção das frutas e verduras que pretendem comercializar, no que tange ao uso de agrotóxicos, assim como já fizeram no caso da carne, rastreando a cadeia de fornecedores para evitar trabalho escravo.
E a indústria brasileira de defensivos agrícolas deveria adotar padrões mais altos, semelhantes aos já praticados em outros países, tomando a iniciativa de substituir os produtos cujo impacto negativo sobre a saúde humana já está comprovado.
Boa parte dessas companhias publica relatórios de sustentabilidade e registram práticas de responsabilidade social empresarial. Resta saber como elas enquadram o fato de produzir substâncias comprovadamente danosas à saúde e ao meio ambiente.
As empresas engajadas no movimento de responsabilidade social, sobretudo as que direta ou indiretamente integram a cadeia de valor dos defensivos agrícolas, precisam mudar esse cenário. Não é possível permitir que continue esse envenenamento lento e gradual de milhões de pessoas em nosso país.
Os governos, em suas diversas instâncias, precisam tomar decisões sintonizadas que ponham em primeiro lugar a saúde do cidadão e a integridade ambiental.
Cristina Spera e Benjamin S. Gonçalves, do Instituto Ethos
Fonte: Envolverde/Instituto Ethos
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