Horizonte sombrio

ROBERTO RODRIGUES

A queda do dólar, ao tirar a competitividade de nossos produtos, é o grande problema para a agropecuária em 2010

NA TERÇA-FEIRA passada, dia 3, a reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp terminou sombriamente: palestras dos competentes consultores André Pessoa (Agroconsult), Alexandre Mendonça de Barros (MB Agro) e Roberto Perosa (GV Agro) mostraram um horizonte bastante carregado para as principais atividades agropecuárias brasileiras em 2010.
Ficou claro que o grande problema pela frente é a desvalorização do dólar, fato que tira a competitividade de nossos produtos no mercado internacional, inibindo a renda nas exportações e abrindo espaço para importações.

Por isso, os preços da soja, por exemplo, podem cair. Estados Unidos, Brasil e Argentina colherão suas maiores safras, elevando a oferta global, em um ano, de 210,5 milhões para 252,3 milhões de toneladas, o que aumentará os estoques finais de 37,4 milhões para 56,1 milhões de toneladas. Mesmo com a demanda aquecida, a recuperação dos estoques deverá sinalizar preços menores. Também o milho, com safras enormes, terá preços baixos, apontando resultados negativos.

Mesmo para o algodão, cujo consumo voltou a crescer depois da crise e que terá redução da área plantada no Brasil, o eventual melhor preço em dólar será relativizado pelo câmbio.

As carnes, igualmente, têm cenários pouco animadores, começando pela bovina: em 2009, as exportações encolheram, principalmente por causa da dura restrição da União Europeia. Como a arroba de carne estava muito barata nos últimos anos, os criadores mandaram as fêmeas para o abate, reduzindo o nascimento dos bezerros. Esse ciclo está acabando, o que elevará o preço do bezerro para reposição, enquanto as exportações seguirão sem renda por causa do dólar barato (que, aliás, faz nossas carnes ficarem caras em termos internacionais).

Mesmo com queda dos preços de milho e soja, matérias-primas das rações para frangos e suínos, essas carnes seguirão afetadas pelo fator cambial no mercado externo.

O café e a laranja são os produtos agrícolas que mais sofrerão. O café já vinha mal havia três anos e 2010 é o ano da safra cheia, dentro do regime de bianualidade da cultura. Embora a oferta e a demanda estejam equilibradas, o que não justifica o preço baixo do café, a especulação tem sido extremamente prejudicial.

Com a crise, houve redução do consumo de suco de laranja e os preços despencaram. Não há perspectiva de recuperação significativa em 2010.

E, para piorar, há o descasamento cambial recorrente: os produtores estão semeando agora uma safra com insumos comprados a um dólar de R$ 1,90 e irão colhê-la a um dólar de R$ 1,70, talvez menos. Mesmo com a queda dos preços dos insumos em dólar, o desnivelamento entre plantio e colheita tem efeito devastador. Enfim, ano ruim para os produtores.

Diante desse quadro, é tempo de tomar providências agora, para evitar mais tarde o velho e desagradável ciclo de inadimplência, negociação de dívidas, prorrogação, reclamação, enfim, essa desgastante história conhecida de todos e que a ninguém interessa. Ah, se o seguro agrícola estivesse funcionando!

Mas, até lá, o Banco do Brasil e o governo de São Paulo criaram um interessante mecanismo, as opções, que dão ao agricultor uma chance de comercializar sua produção sem intervenção oficial, mas com tempo para decidir o melhor momento para vender. Poderia ser ampliado para outras regiões.

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ROBERTO RODRIGUES , 67, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.

Folha de São Paulo, 7 de novembro de 2009, p. B2

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